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Rubem Alves: o professor de espantos

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AuthorAlves, Rubem A., 1933–2014
Date2013
Duration00:44:35
FormatVideo
GenreDocumentary Film
LanguagePortuguese
SubjectEducation
NotesDescrição do produtor: Até que ponto estamos dispostos a abandonar tudo o que conquistamos para viver novas experiências? E até onde conseguimos ir quando o caminho exige priorizar coisas tão esquecidas no mundo atual como a beleza, a poesia, a arte e a capacidade de aprender com olhos de criança? Para o escritor, educador, teólogo e psicanalista Rubem Alves, transpor esses limites é um desafio que se impôs desde a infância e que ele sempre aceitou, sem medos. No documentário “Rubem Alves - O professor de espantos”, conhecemos um pouco da vida deste educador: seus sonhos, ideias e realizações e também as interrogações diante do envelhecer. Considerado um dos maiores pensadores contemporâneos da educação no Brasil, o “jardineiro” Rubem Alves semeia ideias tão “revolucionárias” que acabam, por um lado, provocando a crítica e o desprezo de muitos setores da intelectualidade brasileira e, por outro, conquistando a cumplicidade de todos os que são apaixonados pela Educação ...An English translation is also available.Copyright © 2013. Presented here with kind permission of TV Câmara and Instituto Rubem Alves.
CollectionLatin America Collection
CollectionPrinceton Theological Seminary Media Archive
ContributorPrinceton Theological Seminary
RightsIn CopyrightDigitized collections are made accessible for purposes of education and research. Read full policy

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Transcript

(music)

ALVES: Queriam que eu resumisse, quem é Rubem Alves? Eu pensei no epitáfio. Lembrei-me do epitáfio que Robert Frost escolheu para ele mesmo, achei tão bonito. Ele teve um caso de amor com a vida. Então é isso, eu tive um causa de amor com a vida.

(music)

ALVES: Eu estava vivendo minha vida, viajando feito um louco. Fazendo viagens longas de carros, avião. Eu notei que minhas pernas estavam fracas. Me levaram numa medica [aqui em Ceara?] era grande especialista nesse assunto. E ela deu os examens e confirmou. Meu choque. O Mario Quintana tem um

versinho ali que ele fala sobre o que que ele espere da velhice. Ele dizia, eu quero uma velhice confortável. Com Parkinsons eu não posso ter uma velhice confortável. E venho insegurança. Segurança física, e -- insegurança espiritual. Insegurança física é medos de cair. Espiritual, medo de me faltar as palavras.

UNIDENTIFIED SPEAKER 1: Hoje é o dia internacional da alfabetização.

UNIDENTIFIED SPEAKER 2: Quem vem aqui hoje a falar disso e de muitas outras coisas do género --

UNIDENTIFIED SPEAKER 3: Um mineiro de boa esperança, pedagogo, filósofo, teólogo, psicanalista --

UNIDENTIFIED SPEAKER 2: -- pelo jeito anarquista no exímio provocador --

UNIDENTIFIED SPEAKER 3: -- educador, cronista, contador de historias, e escritor apaixonado pela literatura.

UNIDENTIFIED SPEAKER 2: -- professor emérito da UNICAMP.

UNIDENTIFIED SPEAKER 4: Mais acima de tudo ele pode ser considerado um grande defensor das crianças, daquilo que eles gostariam de aprender na escola.

UNIDENTIFIED SPEAKER 2: Eu embate que o nosso provocador mantém contra as ideias retrógradas que atrapalham educação e a cultura desse país.

UNIDENTIFIED SPEAKER 1: A muito anos tem se colocado no centro desse debate, sobre ensino no brasil. E tornou-se uma referencia na busca de mudanças na forma e no conteúdo de ensino brasileiro.

UNIDENTIFIED SPEAKER 5: E assim mesmo, professor Rubem Alves. Vem para cá!

(music)

UNIDENTIFIED SPEAKER 5: Rubem, mais uma vez muito obrigado pela sua presença.

UNIDENTIFIED SPEAKER 2: Daqui um abraço que é a única coisa falsa desse programa é o abraço.

ALVES: Porquê que a --

UNIDENTIFIED SPEAKER 2: É a única coisa falsa porque [sou um?] gordão.

(music)

ALVES: Nasci em Minas. O meu corpo está cheio de memórias de infância. Entre os prazeres da cozinha mineira, estava o frango com quiabo. Se comia com angu e pimenta. Eu nasci na mesma cidade onde nasceu Nelson Freire, que disse alguns -- eu concordo -- é o maior pianista vivo

da atualidade.

(music)

ALVES: Meu pai era um homem muito rico. Mas a -- a riqueza do meu pai...era riqueza de -- antes de eu nascer. Eu não conheci meu pai rico. Ele era rico, era dono de muita coisa, ele era exportador de café. Ai veio a crise da bolsa -- eu acho que foi 1929. Meu pai perdeu tudo.

E foi essa riqueza e nos tivemos que morar na [Roça?]. As primeiras memórias que eu tem de minha infância são memórias -- da Roça. Casa de pau a pique. Sempre [varrada?]. De uma pobreza

-- os ratos passeando la em cima. Aquele cheiro de kerosene porque a luz não tinha electricidade, [uma?] luz era -- um lampião. Meu pai tinha um defeito. O defeito dele era o seguinte. Ele achava tudo bom. O [dia se?] situação mais desgraçada, ele descobria um jeito de fazer aquela coisa, ficar boa, mas ele tinha um problema, ele estava pobre.

E não tinha dinheiro para mandar os filhos para a escola. Aí o missionário foi ate ele, ofereceu bolsas para [Instituto Gamo?], que era a escola de [Lavras?]. Então nos estamos ligados ao protestantismo não por conversão, mas por -- por esperteza, né?

(music)

ALVES: Aí meu pai resolveu que nos íamos mudar para Rio de Janeiro. Eu achei bom na [milhão?] de viagem, de trem. E foi para Rio de Janeiro e meu pai [ja estava?] bom de vida, ele me colocou nas escolas mais caros do Rio. Colégio [Andrews?]. Aí foi experiencia dura. Eu passei a ser objeto de [chacota?]. Que eu falava "carne." "Mar."

Todo mundo ria de mim. E mais doque isso, meus [os custos?] -- por exemplo, eu não -- lá em minas, eu andava descalço. No Rio de Janeiro tem que andar com meia, meia e sapato, me lembro do primeiro dia que eu foi -- foi ao colégio, eu foi com sapato sem meia. E me tornou o alvo da [caçoada?] geral. O tempo que eu passei no Rio

de Janeiro foi um tempo de sofrimento. Eu nunca tive um amigo. Foi aí então nessa ocasião que me vem a ideia de ser pianista.

(music)

ALVES: Morava na Praia de Botafogo, ia de [Bonde?] no colégio. E tinha os posters la. Os [outdoors?]. Só com uma palavra. [Brailowsky?]. [Cheguei?] em casa e perguntei mãe, "mãe, quê que é Bre-lo-vi-ski?" Ela diz, "Brelovisk? Não é Brelovisk, é Brailowsky, um dos maiores pianistas do mundo."

(music)

ALVES: Não sei como é que eu [arranjei?] dinheiro, sei que eu fui na galeria do Teatro Municipal, la em cima. Quando eu vi aquele cara tocando piano, eu [vi?] duas peças [que eu?] -- eu não me esqueço. [Rondo Capricciosa?] de Mendelssohn, e a Sonata numero três de Chopin.

(music)

[Quiv?], está na minha cabeça.

(music)

ALVES: Pra mim, é a fantasia de ultrapassar humilhação. (inaudible) estar no palco, recebendo -- fantástico, ele tocou. E se eu -- se eu estivesse no palco, todas as humilhações seriam jogadas fora, né? Então eu fiquei -- o que eu podia, e fiquei -- com a ideia na cabeça de eu -- eu podia ser pianista. Só que

eu não sabía das coisas de deus.

(music)

ALVES: Eu estava no Rio de Janeiro, eu não sabía do Nelson Freire ainda estava no Rio de Janeiro. Eu estava doido estudando -- estava com Brailowsky na cabeça. Estava lá estudando Sonata Patética. Estava [alando?] o piano. Aí eram as duas da tarde, eu estava tocando -- estudando. Toca campainha. Eu vou abrir a porta, na porta estava uma senhora com um menininho. O menininho cumprimentou ninguém, foi entrando

pela casa adentro, chegou na sala, viu aquele piano aberto com uma partitura -- ele não teve dúvidas, caminhou até piano, sentou-se ao piano e tocou. Nelson Freire. Nunca tinha se ensinado nada para ele. De onde veio, de onde veio a -- a sabedoria de piano dele? Como é que isso acontece? [Esse?] ele tinha três anos, com

quatro anos ele deu o primeiro concerto. Aí eu compreendi que existe diferença, Deus protege uns e não protege outros. Mas era preferível que eu fosse um -- que eu não fosse pianista. E que pudesse escrever, né? Não me deu, Deus não me deu o privilégio tocar piano, mas me ajudou um pouquinho para ser um escritor.

Quero ouvir musica! Aquelas que fazem parte de minha alma. Pois a alma no seu lugar mas fundo, está cheio de música. Nelson Freire.

(music)

ALVES: Ele tem filtro nos dedos. Os pianistas que tem um [arpelo?] nos dedos. Outros tem filtro.

(music)

ALVES: No colégio, eu vivi uma grande solidão. A igreja foi um lugar onde eu não me sentia solitário. É uma comunidade. E quando você tem uma comunidade, pois se acredita. Que faz a gente acreditar? Acreditar é quanta coisa absurda!

(music)

ALVES: Um dia me deu na cabeça essa iluminação. Porque eu -- para Protestantes e Católicos, a Bíblia é palavra de Deus. É Deus que inspiro aquilo. Mas um dia eu pensei -- mas, como que eles juntaram os livros da Bíblia? Porque a gente achava que os livros tinha sido magicamente coleccionados. Aí eu percebi que eram congressos que -- congressos religiosos que selecionaram os

livros então eles não tinha nada de sagrado. Foram os homens que escolheram aqueles livros. Acreditei -- de repente, de repente -- [paf?]. Cabeça abriu. Eu fiquei tão horrorizado com a mediocridade, que eu perdi a fe. Eu nunca ouvi de nenhuma pessoa que vai fazer uma promessa a Deus

, promessa para receber uma coisa de [volta?]. Nunca viu uma pessoa que prometesse uma coisa boa para Deus. Pois [eu?] prometo que eu vou escutar a [Martha Argerich?] tocando Mozart. Prometo que vou tomar um copo de whisky todo dia. Prometo que vou tentar transar duas vezes por semana, por resta da minha vida. Coisas boas. Quê que a gente

promete para Deus? [Casca diferida?]. Prometo subir os quatrocentos degraus de escada, da escada de igreja, de joelhos. Prometo não beber coca-cola durante seis meses. A gente só -- é como se Deus fica assim babando de prazer ao saber dos sofrimentos. Deus tem prazer, "[ah?], como está sofrendo

, como está sofrendo."

(music)

ALVES: Grande parte dos religiões é baseada nessa proibição de pensar. Não é permitido pensar.

(music)

ALVES: Eu morava em Lavras, a periferia de Lavras, as pessoas mas sofridas que você pode imaginar. Não tinha ninguém para atender a essas pessoas. Então, eu preguei para mudar cabeça dos membros da igreja. Muita gente mudou a cabeça, começou a pensar coisas diferentes, então em vez de ficar pensando no céu as pessoas começaram a ter consciência de que era preciso amar as pessoas que estavam sofrendo.

De repente, os [céus?] da religião me apressarem infinitamente chatos. Como pastor de uma comunidade protestante no interior de Minas, entreguei meu cuidado dos pobres sem jamais pensar em converter-os. Nessa ocasião, o Brasil estava fervilhando de movimentos

políticos. E houve uma mudança na nossa cabeça da geração nova. Antes, a gente queria salvar as almas do inferno, para ir para o céu. Agora que nos não acreditamos nem no inferno nem no céu, nossa missão era salvar o Brasil. Era transformar o Brasil, então nossa fê metafísica se transformou

numa fê política, da engajamento, especialmente a juventude da igreja católica, da igreja protestante, se ligarem com os movimentos entre aspas, revolucionários. Então a transcendência que estava no céu passou a transcendência que está no futuro. Aí, eu crie conflito com o resto da igreja. Eu e um grupo.

Todo mundo era conservador e nos eram diferentes. Então começou por parte da igreja um movimento para liquidar gente. Foi pastor protestante. É provável que se tudo se tivesse acontecido nos conformes, eu hoje fosse um clérigo velho.

Más veio o golpe militar. Fui acusado de subversivo pelas zelosas e bondosas autoridades da igreja.

(music)

ALVES: Tinha terminado todos minhas obrigações académicas, estava livre, que eu trabalhei feito um louco, eu estava com muito [saudades?], queria voltar para o Brasil. Então eu tirei um dia para passear downtown, la na Times Square, e fiquei la vagabundando, andando por aqui, andando para ali, aí foi voltar para ir para meu apartamento e peguei o metrô. Sentei e olhei para frente do outro lado do vagão. E eu fiquei congelado

a hora que eu vi o manchete. "Revolution in Brazil." Aí começou o mês de mais medo que eu tive.

(music)

ALVES: Eu fiquei com muito medo de chegar no Rio de Janeiro, que la eu ia ser preso. As pessoas desapareciam. Então inventei um viagem complicada para chegar direito em Campinas. E um amigo foi a me pegar no aeroporto, e ele me disse logo. Logo de saída. Há duas acusações contra você e mais cinco pastores.

(music)

ALVES: Aí foi um -- dois anos de aflição, tentando de descobrir -- tentando não ser preso. Eu descobri que me -- quem me denuncio. Foi um dos maiores amigos meus. Ele era da [CIA?]. E era favorável as reformas revolucionarias, não sei o que

la. Aí me desliguei da igreja.

(music)

ALVES: Aí de antes dos Estados Unidos me arranjaram a bolsa para fazer o doutoradomento, que tinha feito antes em Nova Iorque eu fiz mestrado. Aí me deram bolsa para fazer doutoramento. Eu fui para Princeton. E foi lá que eu escrevi o livro Teologia de Libertação, foi nesse período.

(music)

ALVES: Minha tésis doutoramento, o nome era "O Sentido de uma Teologia de Libertação." Esse era o título. Então, eu tenha o prioridade do título. Más aí aconteceu o seguinte. Eu mandei a minha tésis para uma editora, editora gostou da tésis, queria publicar tésis. Más disse, libertação -- a moda naquele tempo era teologia da esperança. Era um

alemão, [Moltmann?], [Jürgen?] Moltmann. Más aí editora falou, vamos colocar o seu livro no [caudado?] da teologia da esperança. Então ficou chamado "Teologia de Esperança." Mas originalmente era teologia da libertação. Eu estava em Oxford, fui lá dar uma conferencia. E fiquei amigo lá dos

teólogos la de Oxford. E um dia ele chegou para mim, diz "como é que estão os preparativos para o congresso de teologia em janeiro?" Eu não sabía de nada. O congresso era-se em São Paulo, eu não sabía. Eu fiquei do maior vergonha porque eles em Oxford sabiam e eu não sabía. Aí eu cheguei ao Brasil, foi fazer meus [escarafunchaçoes?].

E descobriu que meu nome tinha sido vetado pelo [Frei Betto?]. Ele não admitia que protestante tivesse prioridade na teologia. Ele escreveu numa reportagem no [Pasquí?], que a minha teologia não prestava porque, por duas razões. Uma delas

é que eu não era marxista. E a outra -- ah! A outra que eu tinha escrito minha tésis nos estados unidos. Eu então mandei dizer para ele que lembra-se que Marx escreveu o Capital em Londres.

(music)

ALVES: Paul Singer chegou lá em Princeton, ele não sabía das coisas lá, onde comprar móveis usados. Eu sabía, botei o Paul no meu carro, com a mulher dele, a [Melanie?], e nos fomos la para cidade chamada Trenton. Ficamos amigos. Quando ele voltou para o Brasil, eu cheguei para Brasil, não tinha emprego, estava sem emprego, um dia me toca o telefone, o Paul dizendo, "você se interessaria ser professor na cidade [Rio Claro?]?"

É uma cidade no interior. Qualquer coisa! Então ele me encaminhou para Rio Claro e aí eu entrei para uma universidade. Depois de Rio Claro eu fui para UNICAMP. Vivi muito tempo no mundo acadêmico. O mundo acadêmico é um lugar perigoso. Dá medo. É muito difícil viver na universidade e continuar a cultivar os próprios pensamentos. É muito

mais seguro ficar [moendo?] os pensamentos dos outros.

(music)

ALVES: Eu fiquei conhecendo Paulo Freire no México. Havia um instituto la, Cuernavaca se eu não me engano, um senhor [Ilich?], eu fui para dar um curso, Paulo Freire foi para dar um curso, eu não conheci o Paulo, não nos conhecíamos. Mas aconteceu uma coisa [gozada?] que os alunos começaram procurar, procurar o Paulo, perguntando se nos havíamos preparado juntos as nossas aulas. Porque ele falava uma coisa, eu

respondia. Sabe? Ficou -- sem que a gente tivesse planejado nada, a gente estava num diálogo, falando juntos. Há escolas que são [gaiolas?]. Há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas, existem para os pássaros desaprendam o arte de vôo. Pássaros engaiolados, são pássaros sob controle. Deixaram de ser

pássaros porque a essência dos pássaros, é o vôo. Eu acho que o objetivo da escola, um deles é desenvolver a inteligência. Não é ter respostas. É desenvolver inteligência. E para ajudar as pessoas a pensar sobre inteligência, eu digo que inteligência é igualzinho ao pênis. É isso mesmo, pênis.

Pênis é um órgão escritor -- excretor, flácido, ridículo, depressivo, tá sempre olhando para o chão. Mais se for provocado, ele sofre transformações hidráulicas extraordinárias e assume a forma de um foguete intercontinental. Explode -- porque é capaz de dar vida, capaz de dar prazer.

A inteligência -- aí você fala a mesma coisa da inteligência porque -- diz -- não é [inteligênio?], não é aquele aluno inteligente. É que o professor ou a professora não fez o trabalho de excitar esse órgão que se chama inteligência.

(music)

ALVES: O problema para mim da escola é que ela não está ligada com os problemas que são vivenciados no dia a dia pelas crianças e pelos adolescentes. Se pode imaginar você, um adolescente de quinze anos, e você ter -- de periferia, no meio de drogas e tudo mais. E você tem que aprender análises sintática.

O quê que você faz com análises sintática? Eu acho que só existe um jeito de aprender a língua. É o -- não é nem lendo, é ouvindo leitura. Não basta ler, porque freqüentemente os alunos não sabem ler. Como é que você fica gostando de Mozart?

Ouvindo Mozart. Não é fazendo uma dissertação sobre a música de Mozart. Você tem que ouvir. A tradição da escola é a tradição da violência, de autoritarismo, dos grandes contra os pequenos. Eu ja fiz essa brincadeira, eu quero criar um novo tipo de professor. [Você?] espanta. Os gregos pensavam

que o pensamento surge quando você olhando para uma coisa o você fica espantado. "Mais como? Mais como?" Esse "mais como", a interrogação, você não está entendendo, então você pensa para entender. Então a função desse professor seria função de espantar.

Objetos da feira da [fruição?] inúteis. Canto gregoriano. Um pôr de sol. O cheiro de orégano. Perfume de jasmins. Uma sonata de Mozart. Um poema de Fernando Pessoa. A constelação Orion. Não servem para nada, não são ferramentas. Porquê os-amamos? Porque nos dão prazer e alegria.

Santo Augustinho escreveu um tratado em que ele dizia que "todas as coisas no universo se dividem em duas classes. Coisas para ser usadas, e coisas para serem usufruídas." Brinquedo [servem?] para nada. Brinquedo inútil. Você não pode fazer nada com brinquedo. Se você não pode fazer nada com brinquedo,

porquê que a gente quer brinquedo? Porquê o brinquedo nos dá prazer? Servir, quer dizer usar. Ser usado. Não é para ser usado, é para ser usufruído.

(music)

ALVES: Mais nas nossas escolas não há desenvolvimento da sensibilidade. Por exemplo, não há poesia pelo prazer de poesia. Você leia a poesia para depois fazer interpretação, para fazer fichamento, para fazer não sei o que -- mais não é o puro gozo, não vai cair na prova, não tem que saber [isso de cor?] -- é o puro gozo. Essa ideia estranha a nossa filosofia

de educação. Um beijo. Um beijo é totalmente inútil. Então porque gastar saliva, tomar risco de um resfriado, de uma gripe? Porque é bom. Bom.

(music)

ALVES: O mundo universitário que me acercava me amedrontava. Por prudência, optei pelo silêncio. Aí, de repente, uma criança entrou na minha vida. Tardiamente. Uma filha [temporanea?]. Foi ela que me fez ter coragem. Eu escrevi muita coisa inspirado pela Raquel. Ela nasceu com um defeito facial

, [fenda?] labial. Sendo diferente ela sentia diferente -- ela tinha de lidar o tempo tudo com o olhar das outras pessoas. Porque o sofrimento das pessoas não é por causa de coisa mesmo, é por causa de olhar das outras pessoas. O olhar é -- os olhos são órgãos muito cruéis. O jeito de olhar.

Então é como se eu tivesse o tempo tudo escrevendo para colocar beleza no sofrimento.

(music)

ALVES: [Nietzsche?] dizia que ele só amava os livros que eram escritos com sangue. Então você tem que fazer pergunta [é comido com?] sangue -- você tem que descobrir, qual é o texto? Como é que você sabe que um texto é escrito com sangue? Você sabe que um texto Emily Dickinson, uma poeta norte-americana que nunca saiu da cidadezinha dela,

ela escrevendo [para um?] amigo disse: Quando eu leio um texto, eu fico fria com que nenhuma lareira pode me [aquecer?], eu sei que aquilo lá é poesia, eu sei que aquilo é poesia. Se eu tenho sensação de que arrancar o topo da minha cabeça, eu sei que aquilo é poesia. Então, a Emily Dickinson entende o poético não é por rima, não é por métrica, não era -- poética

é aquela palavra que tem uma lição com a carne, o verbo que fez carne. Então eu escrevo alguma coisa que é -- aí as pessoas se comovem. Para isso caminhamos a vida inteira / para chegar ao lugar de onde partimos. / E quando chegamos, é a surpresa. / É como se nunca tivéssemos

visto. / Agora, ao final de nossas andanças, nossos olhos são outros / olhos de velhice. Olhos de saudade. E na velhice, a gente vai ficando com medo de ficar sozinho. Eu preciso conversar que eu tenho medo de velhice. Um amigo meu

-- para ter ideia, estava com 92 anos. Sofrendo dores horríveis. Ele foi ao medico e disse, "será que o senhor não pode aumentar o dose de morfina?" O medico olhou para ele. "O senhor está me sugerindo que eu faça eutanásia?"

Quero dizer que ele medico estava tentando preservar a sua pureza teológica. Eu não praticarei eutanásia. Mais aquele homem que estava sofrendo, aquele homem que estava sofrendo, ele precisava -- sabe? Quando a dor é muita... Quando a dor é muita -- você veio um ser humano querido, a gente faz isso com cachorro

. Eu ja levei tantos cachorros meus para as -- irem para o céu dos cachorros no veterinário. A gente ama o cachorro, por isso a gente leve o cachorro para o veterinário, para tomar uma injeção. Então eu acho que as certas situações que a gente tem o direito, o direito -- isso é um direito -- eu tenho direito de escolher se eu vivo

ou se eu não vivo.

(music)

ALVES: Esse lugar aqui é mais o menos ele é meio sagrado para mim. Eu já disse, quando eu morrer, eu quero que minhas [cinzas?] sejam colocadas aqui.

(music)

ALVES: Esse lugar tá muito ligado a minha vida. Eu caminhei muito aqui. Mais agora quando eu volto, é diferente, né? Um conselho: se você amou muito um lugar, não faz essa besteira de visitar-lo.

Porque você vai visitar pensando que você vai encontrar o tempo, mais o tempo não está mais lá. É melhor você ficando com o imagem lá na sua cabeça. Eu não pertenço a esse lugar, esse lugar não me pertence mais.

(music)

ALVES: Por enquanto eu estou ruminando essa mal de Parkinsons. Está enchendo a minha cabeça. Não sobra um lugar para brincar.

(music)

UNIDENTIFIED SPEAKER 6: O nosso querido escritor Rubem Alves, ele perdeu os movimentos finos da mão. Então por essa razão, ele não vai autografar os livros. Nosso querido Rubem Alves, a plateia é sua.

ALVES: Considerei muito a possibilidade de não vir falar com vocês. Eu não sabía se eu iria dar conta. Aí, uns amigos insistindo comigo, sabendo que -- vocês gostam de mim, né?

Depois de meses de silêncio, essa é a primeira vez que eu juntei coragem para conversar com vocês. E estou fazendo o que nunca fiz. Estou lendo o que vou dizer. Não ler só -- mais o menos, leio e [conteado?]. Não sei que peças o mal de Parkinsons vai me pregar.

Mais confio que se eu escorregar vocês me perdoarão. Obrigado.

[text unavailable]

(music)

ALVES: Não desejo que vocês simplesmente entenda o que escrevo. Entender é um ato racional. O que eu desejo e que meus textos sejam comido antropofágicamente. Quero que vocês sintam o meu gosto, desejo que os meus leitores ao lerem meus textos, fiquem com os olhos semelhantes a os meus. Assim, eles verão o mundo dar forma

como eu vejo. E essas palavras se tornaram então desnecessárias.

(music)